Particularmente ordinário – Yan

O inesquecível possível
Você vasculha sua memória em busca do primeiro encontro com alguém que mudou sua forma de ver o mundo. E se lembra de muitos alguéns: Maydée, sua tia-avó que fugiu do Rio pro México muito antes de você nascer, não quis visitar o Cristo, fumou seis cigarros em meia hora e te ofereceu malzbier, “prova, mijo, parece refrigerante”, quando você tinha 12 anos; Rubem Fonseca, na forma de uma edição sur rada de o Caso Morel que seu pai te entregou no seu aniversário de 15 anos e disse, “tá na hora de tu ler livro de homem”; Su Lao Shi, vulgo Reinaldo, um taiwanês que migrou ao Brasil para espalhar a palavra do Tao, te conheceu nos seus 22 anos, perguntou se você descendia de índios ou de negros apontando para seus cachos, sorriu quando você respondeu que dos dois e também dos brancos, mas talvez sorrise por sua falta de jeito ao comer arroz com kuai zi, e que, anos depois, enquanto te orientava na leitura dos Analectos, depois que você assumiu a careca e deixou a barba crescer, te comparou ao monge indiano Bodhidharma; Iemanjá, que você pensava conhecer desde sempre, mas que conheceu de fato ao 13 anos, quando ela entrou em você e chorou pela sua boca um gemido salgado saído de mil conchas, te pôs de joelhos e levou seu corpo pra trás até tocar o chão com sua nuca e tudo o que você via, de olhos fechados e com uma renda branca por sobre a cabeça colocada pela mãe de santo, era uma infinita cortina de espuma de onda; Uiramutã, neta de indígenas em processo de retomada e que antes se chamava Flávia, que você conheceu numa roda de forró em Itanhaém aos 31 anos, te chamou pra dançar, disse que você dançava como um branco e duas semanas depois te deixou porque você não a xingava nem lhe batia durante o sexo; Tião, um pedreiro que fazia obra na sua casa e te retirou pelo calcanhar, todo coberto de merda, de uma vala a céu aberto em Rio Branco aos 3 anos de idade; uma caipira em Conservatória (cujo nome despencou da lembrança), quando você tinha 14 anos, que riu ao te afastar enquanto você tentava enfiar seu pau entre os joelhos dela e desconhecia que o buraco é mais em cima; Paulo Merreu, um bêbado de um sítio na zona rural do Cariri, que bateu em sua porta quando você tinha a idade de Cristo, ofereceu maxixe e milho recém colhidos, pediu dinheiro pra cachaça e contou, naquele mesmo dia, que bebe de desgosto todos os dias há 12 anos desde que sua filha de 16 foi abusada e morta pelo padrasto; Ariane, uma lacaniana que já na primeira sessão encerrou em 5 minutos porque você, aos 29 anos e cheio de problemas, disse que não sabia o motivo exato de buscar terapia; Tati, uma companheira de partido leninista e de faculdade, que te disse, aos 19 anos, que você era negro; sua irmã, até quem você, com 1 ano e 6 meses, engatinhou e cujo pé você mordeu enquanto sua mãe dava de mamar àquela estranha cabeluda ao invés de você, o filho pródigo e abandonado há dias;  e Gareth, um tradutor galês cor de rosa que consagrava ayahuasca com seu pai, que você viu uma única vez no aterro do Flamengo aos 27 anos, ele com a língua pra fora fazendo careta como prática de bioenergética, te disse pra seguir escrevendo enquanto queimasse, e que foi encontrado meses depois numa banheira de sangue cercado por edições de Macunaíma (em inglês) e d’O Mercador de Veneza (em português e inglês), sem nenhuma carta ou bilhete em língua nenhuma.

Você vasculha a memória e encontra esses nomes e essas cenas, outros nomes e outras cenas. No entanto, por mais que vasculhe, não consegue se lembrar da primeira vez que encontrou a si mesmo.

O átomo da fé
Contrariando a regra de despachar um santo quebrado em cemitério ou igreja para evitar maus presságios, você cola a cabeça de Nossa Senhora com super bonder e a devolve à sua mesa de cabeceira: mais do que crer, você sabe que o azar é indestrutível.

Ficar na mão
Sem elas, você não escreveria no computador e no papel (mas rolaria o feed do instagram com a ponta do nariz). Sem elas, Maui não teria puxado as ilhas polinésias do fundo do mar, muito menos você remaria sua canoa. Sem elas, você não tocaria violão para tentar pegar mulher, não se faria gozar sozinho tantas vezes nem tatearia tantas mulheres sem quase nunca fazê-las gozar. Sem elas, Cristo não carregaria sua cruz, tampouco haveria cruz alguma. Sem elas, você comeria feito cachorro e teria de receber deles lambidas apenas na cara. Sem elas, Maradona não teria marcado um dos maiores gols da história. Sem elas, Deus não teria dado vida a Adão na pintura de Michelangelo, nem Michelangelo teria pintado A criação de Adão. Sem elas, você não poderia dar mamadeira a um filhote abandonado ou cogitar suicídio por enforcamento. Sem elas, Oxalá não teria te moldado com o barro de Nanã. E, sem elas, você não apertaria com força o dedo de sua mãe logo após nascer.

Mesmo assim, durante uma bebedeira desmembrada (como levou a cerveja ao copo e o copo à boca, hein?), você afirma que prefere perder uma delas a perder uma perna. Você não se toca mesmo.

A curva dentro do ponto
Você nasceu no Rio de Janeiro e já morou no Acre, em São Paulo, na Bahia e no Ceará (e os búzios e as cartas há anos dizem que ainda vai morar num exterior muito distante).

Você já acreditou em orixás nagôs, em falangeiros e diversas entidades de Umbanda (com destaque para Zé Pelintra e Tranca-Ruas de Embaré), nos Mestres Ascensionados, na vitória luta de classes pela classe trabalhadora, nas palavras de Lao zi e de Kong zi, nas palavras de Jesus, em São Jorge enquanto Ogum para proteção, em São José enquanto ele mesmo para conseguir trabalho, na simpatia de Santa Luzia para tirar cisco do olho, na simpatia do ovo no telhado de Santa Clara para espantar a chuva, No Ho’oponopono, na beata Maria de Araújo, no Padre Cícero e até no Partido Socialismo e Liberdade.

Você já acreditou que acreditar no amor não valia o trabalho e já se apaixonou por uma argentina então estudante de sociologia que hoje é consultora em ONGs parceiras da ONU em Brasília, por uma então historiadora gaúcha que hoje é ceramista em Viamão, por uma então servidora das catracas do metrô de São Paulo que hoje é operadora de trens do metrô de São Paulo, por uma então produtora de arte baiana que hoje roda o mundo como cineasta premiada; e por uma professora cearense que nunca quis deixar o Cariri. Você já amou ler fantasia gringa de bruxos e dragões, realismo mágico latinoamericano, brutalismo, geração beat gringa, russos no varejo e, hoje, não sabe classificar suas leituras. Rubem Fonseca passou de paixão adolescente para matrimônio sólido, fiel e cansado.

Sua segunda maior homogeneidade quadrada é seguir negando no discurso, e alimentando no fundo do peito e no raso da sua escrita, a crença na existência de uma literatura universal.A primeira é não perceber que você é particularmente ordinário.


Engolir o tempo
Você perde o vôo da ponte aérea às 17h. Recebe a notícia às 14h12, ao voltar do almoço, no seu trabalho no Belenzinho. Pega metrô e táxi, chega em Congonhas às 15h28. Passa os mil reais, quase tudo da sua conta, no débito. Perde a hora vomitando e chorando no banheiro do salão de embarque. Implora que te coloquem no próximo vôo. Pensa no rabecão que te espera no Rio para retirar o corpo ao menos um pouco quente de sua mãe da casa em que você cresceu. Você explica tudo isso para a gerente da GOL, mas ela não se comove. Pensa no que todos esperam de você nesse momento, pensa no que você espera de você nesse momento. Agora, por mais que tente, você não consegue vomitar, muito menos chorar.

Chamam-se vida
Quando sua mãe resolveu dar um tempo da Umbanda e passou a trabalhar na “IEVE” (Irmandade Espiritualista da Verdade Eterna), você sentiu falta dos caboclos, dos pretos velhos e das ibeijadas. Mas também gostava das sessões de chama violeta e de ver todos os médiuns vestidos de branco, ainda que ninguém incorporasse e que as línguas faladas durante as rezas fossem mais confusas que iorubá, quimbundo, nheengatu e latim. Outra coisa que gostava era do nome místico. Todos os membros iniciados recebiam um. O nome místico era o nome de uma encarnação passada do médium, sob a qual ele deveria trabalhar espiritualmente até esgotar o karma que lhe cabia. Médiuns mais antigos chegavam a ter mais de um nome místico, formado por um nome próprio que você nunca tinha ouvido e o nome de um lugar que você nunca tinha ouvido. O de sua mãe era Cyanne de Govali.  Você morria de vontade de ganhar o seu.

No dia das crianças, você, sua irmã e os filhos dos outros médiuns foram levados para um encontro com Xazyr III, o patriarca da irmandade. Seu único objetivo era o lanche. Mas depois de uma prece aos Mestres Ascensionados e aos Senhores do Karma, Xazyr III chamou uma a uma para dar seus nomes místicos. Era uma surpresa para o dia das crianças e você nunca tinha se sentido tão feliz e grato por ser uma. Ele era velhinho, bem branco, todo vestido de branco e com a pele feito folha de papel que a gente amassa numa bola e depois abre em folha de novo. Segurou suas mãos, fechou os olhos, abriu os olhos e disse seu nome: Ali de alguma coisa, você supôs que fosse árabe.

Sua mãe voltou pra Umbanda, você cresceu, virou marxista ateu e saiu da Umbanda, saiu do partido e voltou pra Umbanda, sua mãe morreu e não há mais ninguém que lembre o resto do seu nome místico. A “IEVE” ainda existe, mas o Xazyr III não está mais lá, adultos só ganham nome místico se iniciados e você já tem obrigações demais no terreiro. Sua única ligação com o oriente próximo são as músicas de Ali Farka Touré e O Quinteto Islâmico, de Tariq Ali. Sempre que precisa de um pseudônimo para algum concurso literário, você não ousa pegar a parte conhecida de seu nome místico, nem profanar a desconhecida inventando algo.

E às vezes, muito pouco, quase nunca, você se pergunta quantas encarnações serão necessárias para que o seu próprio nome, o de hoje, vire um nome místico.

Voto perpétuo
Mais uma vez, você promete parar de escrever e quebra a promessa. Existem muitas outras, mas essa é a traição que você pratica com mais fidelidade.

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