
O poeta, contista e novelista paulista Fabrício Corsaletti é um dos melhores cronistas brasileiros em atividade, pena que nenhum jornal nem revista ou site oferece espaço pra ele publicar seus textos geniais toda semana. Mas dá pra ler muitos deles nesta antologia publicada ano passado pela 34, Um Milhão de Ruas.


























Proposta
Não se escreve crônica com a bunda na cadeira. É preciso que o cronista tenha andado bastante, conhecido muito geografia — tanto cartográfica quanto humana. É preciso olhar para o lado de fora para poder imprimi-lo com seu sentimento interior.
Então a Proposta é que o escritor ANDE, se coloque em ação.
Você vai escrever uns 9 mil caracteres sobre o percurso que faz do lugar A para o lugar B para levar o objeto X para a pessoa Y.
Levar o objeto X para a pessoa Y é só um pretexto para seu texto, mas você deve relacionar este pretexto ao foco da sua crônica – que é sobre o que você vê do lado de fora e o que sente do lado de dentro.
O percurso será extraído dos dois lugares da sua cidade (A e B) de que você mais gosta. Busque lugares não muito óbvios, não muito turísticos; lugares afetivos, carregados de significação.
Primeiro FAÇA o tal trajeto. Anote tudo o que achar interessante, fotografe tudo, mas tome cuidado com os ladrões. Anote diálogos ouvidos, anote ideias, anote sensações, pensamentos. Se você quiser desviar do trajeto de A a B, indo para um ponto C ou G ou M, fique à vontade. Cronista bom é cronista que se perde, que flana, que perambula.
Chegando em casa, passe a limpo. Se você quiser, não é necessário contar nem o começo nem o fim – somente o meio, o trajeto em si, com suas descrições exteriores e com suas observações subjetivas. Se você quiser, pode usar o pretexto de entregar o objeto X para a pessoa Y. Você é que sabe.
Depois de passar a limpo, EDITE. Deixe seu texto irretocável.
Normalmente, este exercício estimula o participante a praticar o passeio a pé. Ou de ônibus, de metrô, de bicicleta. Não andar de carro nem de helicóptero, e Uber só em último caso.
Obviamente, escreva na primeira pessoa.
Mãos à obra.
