1.
Cindy, a primeira gata que tive, nomeada por minha mãe em homenagem a Cindy Crawford, chegou quando eu tinha dez ou onze anos. Estávamos nos mudando da casa da minha avó e Cindy vinha para confirmar essa independência recém-adquirida, pois na casa da minha avó não era permitido ter bichos. Siamesa, olhos azuis e assimétricos, como são quase todos dessa raça. Não instalamos redes protetoras no novo apartamento, que ficava no terceiro andar, então Cindy foi nossa gata por não mais que seis meses. Um dia acordei e não a encontrei pela casa. Um tempo depois, minha mãe ligou avisando que, na noite anterior, quando eu já estava dormindo, deu falta da gata e foi na vizinha do segundo andar ver se ela tinha caído da varanda. Desci rápido, a cabeça doendo porque segurava o choro. Andei pelo condomínio, olhando os canteiros, as árvores, as portarias dos blocos. Me agachei entre os todos os carros, abaixando a cabeça cada vez mais devagar para olhar debaixo deles, tentando adiar aquele primeiro luto. Cheguei a perguntar ao porteiro se por acaso algum gato tinha passado por ali. Vendo meu desamparo, ou só para me sacanear, disse que viu Cindy indo embora com um gato. Aprendi que é o que acontece com elas quando entram no cio: aceitam o primeiro convite do mundo real. E não voltam. Até hoje sonho que deixei portas e janelas abertas e meus gatos fogem, ou que estamos num espaço aberto e preciso contê-los, todos ao mesmo tempo, e nunca consigo.

2.
A segunda Cindy chegou pouco tempo depois. Cindy 2 conheceu profundamente a vida de inquilina, porque passamos a nos mudar quase todo ano de um aluguel para outro. Aparentemente não havíamos aprendido a lição, já que em nenhum desses apartamentos havia tela protetora. Cindy 2 conheceu também muitos parapeitos, do terceiro ao décimo terceiro andar, e se moveu com graça e destreza por anos sobre Vitória e Vila Velha. Numa dessas casas, entrou no cio e berrou noites e dias inteiros, até conseguir fugir para um quintal compartilhado e trepar com um vira-lata das redondezas. Minha mãe queria que ela cruzasse com um gato de raça, então a confinou numa gaiola com um persa-raiz numa clínica veterinária para formar uma bela família, na base da violência, como tantas belas famílias. Um tempo depois, deu cria debaixo da minha cama. Doamos três dos quatro filhotes (as fêmeas) e ficamos com o macho, o único mais peludo, um gato preto com uma mancha branca na barriga. Este pude dar o nome: Homer, não por causa do grego fundador da poesia, mas em homenagem ao pai da família Simpson. Já Cindy 2 foi, finalmente, castrada, e viveu conosco por mais um tempo, ao lado do filho. Homer era o mais manso dos gatos, e o mais carinhoso. Dormia comigo, do meu lado, em cima de mim, mostrando a mancha branca que crescia na barriga. Por poder, novamente, do aluguel, em 2005 precisamos nos mudar. Neste novo apartamento, minha mãe foi informada, não eram aceitos animais de estimação. A decisão mais sábia seria doá-los para uma grande amiga da minha mãe, por sua vez mãe do meu melhor amigo da infância, que vivia numa casa. Não me lembro como se deu meu processo de convencimento, ou se houve de fato algum, mas no fim Cindy 2 e Homer foram deixados na sua nova e grande casa. Chegando com a mudança, no corredor do andar, ouvimos latidos no apartamento vizinho. Não sei se alguém esqueceu de mencionar que, embora animais não fossem permitidos, talvez fossem tolerados. Por que, então, não pegamos os gatos de volta? Não me lembro. Poderia perguntar para minha mãe, mas mesmo que tivesse uma resposta, não acho que a aceitaria. Logo veio outro e todo o restante foi esquecido. Pouco tempo depois, receberíamos a notícia de que Homer, um macho não castrado, saiu de casa e não voltou mais. Cindy 2, ferida numa briga com outro gato, adoeceria para morrer em seguida.
3.
Rony era uma pequena bola de pelo cinza com olhos amarelos de réptil. Foi escolhido entre outros gatos persas e comprado pelo namorado da minha mãe. Rony, segundo minha mãe, era o único dos filhotes que não tinha uma cara achatada. Como Homer, era calmo e carinhoso. Mal conseguia miar: abria a boca e um ou outro grunhido escapava quando queria comer. Nos 13 anos em que viveu conosco, morou em apenas três ou quatro endereços. No último, tomou gosto por passear no estacionamento do prédio, de coleira, e sempre chamava atenção dos transeuntes pelo tamanho e pela calma com que lidava com a vida fora do apartamento. “Isso é um gato?”, era a pergunta que mais ouvíamos quando olhava para a rua, entre uma bocada no capim crescido nos vãos das pedras e uma breve perseguição (com os olhos, apenas) de insetos variados. Quando queria sair, andava até o móvel abaixo da televisão e abocanhava a corrente da coleira antes de jogá-la no pé da porta. Então olhava para mim e esperava minha boa vontade matutina. Sempre vencia. No mais, Rony dormia, sobretudo na minha cama. De certa forma, foi o primeiro gato que deixei para trás, por escolha, ainda que Cindy 1 e 2 e Homer tenham sofrido uma espécie de abandono. Em fevereiro de 2016, 12 anos após Rony chegar, mudei de estado para estudar. De dezembro a janeiro, antes de sair da casa da minha mãe, mergulhei no 2666, do Bolaño, como uma despedida das leituras feitas só por prazer. Como o livro era pesado, eu o deixava aberto no colchão e me sentava na cama, curvando as costas numa postura pouco recomendável por quase mil páginas. Rony deitava ali, do lado do calhamaço, e olhava para mim até dormir. Não devia sonhar com a lista interminável de assassinatos descrita no México de Bolaño. Talvez sonhasse com a busca desesperada dos personagens do livro (de todos os livros do chileno), pessoas sempre alteradas pelo poder da poesia e da literatura. Talvez sentisse que, naquela busca febril, haveria um oásis, mesmo breve, para se refrescar no final. Em setembro de 2017, estava no supermercado em Viçosa, contando as moedas da bolsa de mestrado, quando minha mãe liga para avisar. Rony já estava muito fraco, sem comer, por conta de uma doença nos rins, e minha mãe optou pela eutanásia. Disse à minha namorada na época e ela me corrigiu: “Não se fala eutanásia pra bicho. É sacrifício.” De noite, chorei sozinho, desesperada mas brevemente, a cara no travesseiro, como um melodrama ruim. No dia seguinte apresentei um trabalho num congresso, do qual não me recordo.

4.
O ano de 2019 guarda muitos anos num só. Último ano do mundo velho, antes da pandemia, ano em que fiquei desempregado durante dez dos doze meses, ano de dívidas e racionamento de maconha, ano da escrita dos primeiros poemas que dariam num livro, ano em que conheci minha mulher, Maria. Nesse tempo em que o Tinder era uma paisagem menos árida, pelo menos para homens, quase não acreditei quando aquela mulher saída da nouvelle vague francesa me encarou pela tela do celular. E acreditei ainda menos quando o celular vibrou, minutos depois, confirmando o match. Numa das fotos do perfil, Maria estava deitada na cama e, sobre o seu peito, uma mancha preta de dois palmos olhava para cima. Num dia qualquer de março, Ella, a gatinha medrosa que se escondia de estranhos e conhecidos subia sem hesitar no meu colo, o cara do Tinder, e ali ficaria por mais oito ou nove meses, até ser entregue para o veterinário que a faria dormir. Viveu, silenciosa, um câncer agressivo que fazia saltar da pele pequenos monstros de sangue, viveu o trabalho das sombras andando pelas arestas da casa, olhando o movimento dos pássaros que conversavam na copa da árvore debaixo da nossa janela. No fim, cansada de contemplar, fugiu do veterinário, enterrou o rosto no meu abdome e tentou fincar as unhas na minha camisa, mas estava muito fraca. Então partiu. Nos dias que se seguiram, o verdadeiro silêncio, a presença que se faz notar porque só pode ser recordada. Tinha me mudado para morar com Maria há dois meses e agora iríamos cuidar dessa sensação estranha, dessa espécie de pacto de silêncio diante da ausência de alguém. Pela casa, porém, os espaços vazios começavam a ser ocupados. Formiga – que tinha esse nome por conta de sua pelagem tricolor, parecida com um bolo formigueiro –, em segundo plano desde o avanço da doença de Ella, mostrava seu charme e sua elegância no auxílio das tarefas cotidianas. Observava a limpeza da louça, o desembrulhar das sacolas do supermercado, o filme passando na tevê, o trabalho no computador, deitada na almofada. Corria pelo apartamento, chispando a unha no piso de taco, passava de uma janela para outra se equilibrando perigosamente no parapeito – até que, uma noite, caiu lá embaixo e, milagrosamente, voltou correndo ladeira acima até a encontrarmos na garagem do prédio. Dois anos depois de Ella morrer, Formiga foi diagnosticada com doença renal. Resistiria ainda mais dois, e durante esse período de luto antecipado fui me reencontrando no silêncio que Ella deixou. Li os poetas, ouvi os músicos, menti para o psicanalista. Mas todo silêncio é diferente e nenhuma experiência é transferível. Quando alguém morre, todo o mundo conhecido se vai com ele. Não importa se é um gato. De uns tempos para cá, parei de sonhar que meus gatos estão fugindo pelas janelas abertas – porque são eles as janelas e as portas, e quem foge é a morte, aprisionada nos seus corpos pequenos e peludos. Não há som nem fúria. Quando morrem, o silêncio que deixam é a própria vida à espreita.

