“Tô indo levar o documento do carro”.
“Viu”.
Viu o quê? Que eu disse que vou levar o documento do carro. Dá pra entender?, dá. É que cismo de dar a entender que não conheço a expressão, que não sou daqui, que meu ouvido não vê, quiquiquiqui. Bom, que bom é ser demais pra ser, disse um nativo. Nessa terra em que um faz hum e o outro faz viu.
Falando nisso, é muito olho no olho. Entre a máscara e a sobrancelha (e um nariz no meio, vai e vem) sobra espaço. É um olho nos olhos e outro nas coisas. Jorge, Zélia e um cachorro de metal, outro cachorro de sobras entre as costelas mijando no colega que não pode reagir. Gringo loiro tirando máscara pra tirar selfie, paulistas na Dinha tirando vatapá do acarajé, polícia tirando gente da praia. E o mercado da aldeia de pescadores que a prefeitura tirou, virou complexo de restaurante e bar gurmê. E eu tirando onda de local, observando como quem conhece tudo de outros carnavais, disfarçando pra não pagar de turista e, o pior, de sudestino. E botando a vida pra pegar no tombo nessa casa nova desde o começo da pandemia.
“Você precisa ver o dois de fevereiro no Rio Vermelho!”.
Vi. Tinha tapume na praia, flor na mureta por não poder plantar no mar. Um mar de coisas faltando. E as pessoas, os desconhecidos, o chão da ciclovia, o sargaço nas pedras da praia, as infinitas ruas com nomes da família ACM e o miolo da cidade me diziam: velho, Salvador não é isso não. Tô sabendo, eu pensei, nenhum lugar é isso daí. Nem meu endereço novo, nem o anterior.
Alcanço o quartel e deixo a ciclovia, cruzo a avenida e viro numa esquina, brotam as três ladeiras que levam ao Nordeste. Desce surfista de tudo quanto é idade, sobem pastores e freiras pras vizinhas Assembleia de Deus e Igreja de São José de Amaralina, e fica, pairando sobre as casas, uma nuvem espaçosa de som. Arrocha durante o dia e pagodão durante a noite.
Ao vencer a última ladeira, sol estralando no meu princípio de careca sobre o ori, tocava aquela da Rita e a facada, do Tierry. E uma pontada na caixa dos peitos, cuspindo os bofes, caminhando contra a gravidade e nenhum vento. E o documento suado no bolso quando cheguei no final de linha, no Mercado Popular do Nordeste de Amaralina. Passou um velho montado num jegue, passaram enxames de motos, pessoas entre os carros, homens barrigudos tomando uma antes do meio dia pro almoço descer redondo, um caminhão lotado de sacas de 20 kg de quiabo, coroas gordas fritando coxinhas na calçada e um menino fazendo embaixadinha no meio da rua: o lugar pra se lembrar das babilônias do meu Rio.
E, com duas sacolas com aipim, couve e seriguela, passa minha sogra com os olhos brilhantes sobre a máscara. Entrego o documento do carro que ela tinha esquecido comigo, falamos do calor, obrigado, de nada, apareçam em casa, vamos sim, beijo, tchau.
Desço as três ladeiras. A pontada na caixa dos peitos, o fogo de conhecer a cidade que escolhi, perguntar se ela me escolheu, manguear sem temer morrer nem matar ninguém. Vou pensando nessas coisas e o Nordeste de Amaralina, o Rio Vermelho e a cidade vão rindo de mim. Achei que eram, outra vez, as coisas e os lugares, mas era a minha caixa dos peitos quem dizia: velho, Salvador não é isso não. Eu respondi pode crer, tô sabendo. Quer dizer: viu.
