Você é o que quiser ser

Naquele semestre, o Cadu entrou no grupo de teatro da escola, foi acampar na praia com os moleques da classe, fumou maconha pela primeira vez e ficou com a Marcinha. Mas o ponto alto da sua nova vida foi quando o Leandrão fez o convite, o equivalente, no meio dos anos 90, a ser chamado para uma missão à Lua ou para fazer dupla com o Romário no ataque da seleção:

“Não quer vir no ensaio da banda amanhã? A gente está procurando um vocalista novo.”

Como se fosse uma sirene de ambulância, o sinal escandaloso da escola tinha acabado de bater, anunciando o começo do recreio, e os dois alunos desciam a rampa do prédio principal em direção ao pátio já lotado. Leandrão era do primeiro colegial, tinha o cabelo comprido (e um pouco fedido), só usava camisetas pretas e ganhava uma graninha dando aulas de bateria. Cadu tinha entrado na escola naquele ano. Estava na oitava série, usava camisetas brancas e engomadas do uniforme da escola e só recentemente tinha parado de pentear o cabelo pro lado com gel.

Ele apertou as sobrancelhas grossas:

“Eu?”

“É, o pessoal comentou que você fala bem inglês.”

Leandrão tinha uma banda chamada Hellbone, que fazia covers do Megadeth, do Metallica e do Iron Maiden. Cadu falava razoavelmente bem inglês, porque estudava bastante, como estudava bastante todas as outras matérias. Mas daí a cantar em inglês? Megadeth, Metallica, Iron Maiden? Ele gostava de umas coisas mais pop, que sua mãe ouvia na rádio Antena 1 enquanto passava roupa: Roxette, George Michael, Jon Secada…

“Além, do mais, você já foi vocalista de uma banda, né?”

***

                  No primeiro dia do Cadu na escola nova, a diretora o receberia na porta e mostraria as instalações todas, antes de o levar até sua classe e o apresentar para a turma. Só de imaginar isso, arrumando o cabelo no espelho de casa, ele já sentiu o estômago borbulhando. Tinha tudo para ser uma catástrofe. Pensou em pedir pra não ir, mas sua mãe já estava na porta, com a bolsa no ombro, esperando para o acompanhar até o ponto de ônibus.

Não foi uma catástrofe. A diretora, Telma, era jovem e engraçada, e falava de um jeito que não fez o menino se sentir envergonhado nem quando foi apresentado ao pessoal do teatro, nem quando cruzou com as meninas do time de handebol, nem quando chegou na turma da 8ª. B. A classe não estava na sala, e sim fazendo uma “dinâmica” no jardim atrás da escola. Mesmo com as gentilezas da diretora, Cadu estava arfante, desconfiado. Parecia olhar para um espelho invertido do seu antigo colégio. A professora de História, que comandava a atividade, se aproximou:

“Você tá bem?”

               “Tô, tô. É que eu tenho asma.”

               Cadu tinha gastrite nervosa desde os dez anos, refluxo desde os doze e foi parar no hospital com colite no ano anterior. Mas nunca teve asma.

                “Asma? Que bosta. Cola aqui com a gente”, disse o Saulo, do primeiro grupo de alunos sentados na grama. Com o cabelo na altura dos ombros, era mais um garoto com jeito de rockstar ou de ator de série adolescente americana em uma escola em que todo mundo parecia ter algum dom irritantemente especial. Tinha professor de guitarra, de balé, de judô. Campeão de natação, atriz mirim, presidente de fã-clube de banda. A escola atraía e estimulava esse perfil de aluno. Em pouco tempo, Cadu entenderia o porquê da mensalidade ser tão cara ¾ e de sua mãe estar trabalhando tanto.

                Saulo terminou o serviço que a diretora Telma começou, ao apresentar Cadu para o resto da turma. A memória corporal fez o garoto passar pelas primeiras rodinhas com a cabeça baixa, mas aos poucos conseguiu olhar melhor aqueles pessoas que o cumprimentavam. E descobriu nelas uma qualidade fascinante: elas não sabiam nada sobre ele.

A atividade que a professora conduzia era sobre diferentes estruturas familiares. Quando o assunto chegou em “figura paterna”, Cadu ficou observando com atenção os colegas falarem de seus pais (biólogos, geógrafos, jornalistas, compositores) enquanto esperava sua vez.

“Meu pai? Era policial. Ele morreu numa batida na favela”

Um silêncio tomou conta do grupo até a professora intervir e prosseguir com o debate. Mas naqueles segundos de vácuo, pela primeira vez na vida Cadu viu pessoas olhando para ele com algo parecido com admiração. Era como se aquele pessoal o achasse interessante. Cadu concluiu que a partir daquele momento, ele poderia ser o que quisesse.

 ***

A mãe do Cadu nunca explicou direito o que o pai dele fazia. Parece que tinha sido motorista de caminhão e sacoleiro no Paraguai. Isso antes do menino nascer, porque quando ele tinha oito meses, o pai, Roberval, foi embora e nunca mais deu notícias.

 ***

Cadu estava na festa na casa de um garoto do colegial quando viu um casal do segundo ano subir as escadas do sobrado de mãos dadas, entrar no quarto dos donos da casa (que estavam na Grécia) e trancar a porta. Ele ficou fascinado com a maneira com que fizeram isso na frente de todo mundo, sem alarde, mas com total naturalidade. Não é que o cara arrastou a menina para lá. Ela também queria ir! Então o Saulo fez uma pergunta que tirou Cadu do transe:

“E você? Já comeu alguém?”

Pela primeira vez, ele viu nos novos amigos um gesto que não era de acolhimento. Aquele sorrisinho desafiador no rosto deles era familiar.

“Já, claro. Ano passado. Uma menina da minha escola.”

Deu um gole no seu Hi-Fi, tentando demonstrar naturalidade tanto com a mistura horrenda de Fanta com vodca que bebia pela primeira vez como com a resposta que tinha acabado de dar. Os amigos chegaram mais perto, pedindo explicações, detalhes, como, quando, conta aí!

                “Ela foi fazer um trabalho em casa um dia… e já veio pra cima!”

                Os moleques puxaram Cadu para um canto do quintal da casa, onde a música chegava mais baixa, para poderem enchê-lo de mais e mais perguntas sobre a sua aventura amorosa. Ele contou que eles transaram “umas quatro ou cinco vezes” naquela tarde, que ela era uma mestra do boquete e que quase quebraram o estrado da cama dele com posições sexuais acrobáticas. Caprichava nas descrições milimétricas e nos gritos e sussurros sacanas que menina teria despejado na orelha dele. Uma verdadeira aula de narrativa erótica, um Kama Sutra adolescente em que as figuras iam sendo desenhadas em tempo real nas cabeças dos cinco garotos à sua volta.

***

                  Para cuidar sozinha de Cadu, sua mãe, Neuza, tinha se acostumado a ter dois ou três empregos ao mesmo tempo. Já havia sido faxineira, garçonete, repositora e caixa de supermercados. Hoje era secretária de uma pequena empresa durante o dia, e à noite trabalhava em um serviço naquela época inovador: atendente de canal erótico no disque 900. Para falar com ela, era só ligar 900-6969, e depois os ramais 2 (“ninfetas”) ou 3 (“dominação e sadomasoquismo”). Seu posto de trabalho era em casa, mesmo, em uma central telefônica instalado no quarto, o que fazia o Cadu ter que aumentar muito o volume da TV na sala pra poder se concentrar no que estava assistindo.

***

                “Qual era o nome dela?”, perguntaram todos, um de cada vez e ao mesmo tempo.

                Pois é, qual era o nome dela?

                “Giulia.”

                Era o nome de uma menina da escola antiga. Uma das poucas que falavam com ele. Dava “oi” e “tchau” e não escondia a mochila dele, nem abaixava as calças dele na frente da escola toda, nem virava o conteúdo do lixo na cabeça dele, nem escrevia cartas anônimas dizendo que ele tinha que se matar, o que a fazia diferente de 99% do resto do pessoal. Cadu chegou a achar que estava apaixonado por ela, mas os engulhos diários que se formavam quando ele botava o pé no colégio não deixavam espaço no seu corpo para qualquer outro sentimento.

A Giulia realmente foi uma vez fazer trabalho na casa dele. Neuza deixou até um bolo de cenoura pronto para a visita, e um pacote de bolachas de água e sal para o filho. Ele já havia feito toda a pesquisa do que tinham que colocar no projeto. E enquanto ele escrevia o trabalho inteiro em duas folhas de almaço, ela comia o bolo de cenoura e lia uma revista “Capricho” com o Johnny Depp na capa. Em uma hora, terminaram o trabalho, o bolo e a “Capricho”. Ela se despediu com um sorriso e um aceno de miss, e ele foi para o banheiro imaginar tudo que aquela tarde poderia ter sido.

                Mas o que o Cadu gostava mesmo na Giulia era do nome dela. Bonito, elegante, diferente. Giulia, com “gê-i-u”, não “jota-u”. Nunca tinha ouvido falar de alguém com aquele nome.

                “Giulia, com “gê-i-u”. Giulia.”

“Como ela era?”

Já que o nome escolhido foi o da ex-colega de classe, Cadu passou descrever para os amigos as características físicas dela.

“Morena, cabelo liso até o meio das costas, tava sempre de tiara daquelas fofinhas. Vivia com blusa da escola amarrada na cintura pra esconder a bunda. Achava que era muito grande.”

“E os peitos?”

“Ah… legais.”

“Legais?”

“Meio caídos, mas legais. E tinha uma pintinha. Do lado da boca. Tipo a Cindy Crawford. Linda.”     

***

Cadu estava acabando com um pacote de bolachas recheadas de chocolate na casa da Marcinha, feliz de não ter tido crises de crises de gastrite desde o ano passado. Apesar de ter ganho uma vida social inteiramente renovada, ele continuou tirando ótimas notas. O que fez a menina bonita de olhos verdes e cheiro de flores, mas com desempenho escolar medonho, pedir sua ajuda nos estudos.

O estudo, com os dois sentados no tapete do quarto dela, não durou muito (o que explicava as notas dela). Depois do lanche, em vez de ouvir a explicação dele sobre a diferença entre angiospermas e gimnospermas, Marcinha começou a desmanchar o penteado dele.

“Fica melhor assim”, ela disse.

Logo estavam se beijando, e seguiram assim pelo resto da tarde. Não avançaram muito além disso, porque em determinado momento ela segurou a mão dele e falou:

“Vamos com calma. Eu não sou tão experiente como você..”

***

“Já fui vocalista, sim, mas a banda não era tão pesada. Mais Guns, Skid Row, sabe?… Além disso, descobri que eu tenho um calo nas cordas vocais. Não posso cantar certas notas, sabe? Mas quem sabe eu dou uma passada no ensaio e a gente vê…”

O cara de camisa com a capa do “Master of Puppets” balançava a cabeça, interessado no que Cadu dizia. Ali, a autoestima do garoto chegava ao seu ponto mais alto. Para no segundo seguinte desabar de uma vez, descendo pelas pernas do garoto e escorrendo pela rampa do colégio. Enquanto o Leandrão seguia falando sozinho que a banda dele também tinha influências melódicas, Cadu viu, no meio do pátio, a diretora Telma em sua procissão de apresentação da escola para os alunos novos. Ela apontava para o teatro, para a cantina, a biblioteca, e uma menina a seguia, olhar ainda embaraçado, mas encantada com a algazarra do recreio. Uma menina morena, cabelo liso até o meio das costas, com tiara daquelas fofinhas e blusa amarrada na cintura. De onde ele estava, não dava pra ver a pintinha do lado da boca, mas Cadu sabia que estava lá.

Cadu começou a suar. Ele se sentia a maior anta da face da Terra. Como não imaginou que existia uma chance, mesmo que pequena, da Giulia sair da outra escola e vir para a mesma que a dele? Tudo bem que um colégio era no Tucuruvi e o outro, no Jardim França, mas ainda estavam na mesma Zona Norte de São Paulo. Será que a menina havia se mudado e essa escola era mais perto da casa nova? Essa era a razão de Cadu ter vindo para a escola, na história que contou aos amigos.

Na verdade, Cadu e a mãe continuavam morando no mesmo lugar, mas Neuza não aguentou mais ver o filho emagrecendo de tanto vomitar em casa, antes de ir para a aula, na escola, atrás da quadra, e em casa de novo quando chegava de volta. Bancou a mudança para um colégio mais acolhedor ¾ e mais caro, no bairro mais rico ¾ mesmo que o moleque tivesse que pegar condução para chegar.

                Leandrão continuava falando e procurando na mochila um CD do Slayer para emprestar para o Cadu, mas o garoto só conseguia prestar atenção em Telma apresentando Giulia para todas as turmas da escola. A menina sorria seu sorriso de miss, e algumas garotas a receberam com abraços e beijos. Dentre os milhares de nomes de garotas que ele conhecia, por que ele falou o dela? Por que não “Camila”, como as três que estavam na sua classe? Por que “Giulia”, e não “Julia”, com a bosta de um “jota-u”? Por que ele a descreveu tão perfeitamente? Por que não disse que ela era uma loira peituda qualquer?

Congelado no meio da rampa, Cadu olhou para a escola. Os jardins, as quadras bem cuidadas. A turma do teatro conversando no canto do pátio. O pessoal do vôlei passando e o cumprimentando com simpatia. Saulo e a galera da classe sentados no chão, rindo e discutindo algo muito importante. Marcinha com as amigas na fila da cantina. Todos aqueles cenários e aquelas pessoas perderam a cor e, estranhamente, começaram a se parecer com os da antiga escola.

Finalmente o baterista da Hellbone achou o disco no meio da bagunça da mochila, entre os cadernos em branco, a camisa de flanela amarrotada e um Discman com fone pendurado. “Reign in Blood”, de 1986, um clássico. Nesse momento, Cadu se dobrou e despejou todo o conteúdo do estômago no All Star preto do Leandrão.

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