No corredor
O Dread estava sentado no lugar de sempre, o chão de pedras vermelhas enceradas do corredor que dava na biblioteca. Um dos caras do grêmio da escola parou na sua frente, desenrolou uma cartolina branca e colou na parede onde ele estava encostado, fazendo questão de roçar o pinto na testa do moleque de óculos e sardinhas. Depois, foi embora rachando o bico. Dread se contorceu para ler o cartaz às suas costas. “‘Baile da primavera?’ Que ridículo”, falou baixinho. Não era “Dread” por ter cabelo rastafári (embora tivesse um CD do Bob Marley e outro do Pato Banton), pelo contrário: o dele era raspado bem curtinho, igual ao do Keanu Reeves no filme que tinha visto com o Magrão no cinema. “Dread” era diminutivo de “André”, e ele gostava do apelido, parecia mais descolado. O problema é que só os amigos muito próximos o chamavam assim.
André achou ridícula essa história de baile porque era coisa de escola americana, daqueles filmes da Sessão da Tarde. Nada a ver com a escola dele, estadual, com falta de professor, quadra com tabela de basquete quebrada e macarrão com salsicha na merenda. Aí lembrou que, nesses filmes, o baile é o momento em que o mocinho arranja coragem pra se declarar pra mocinha. Não só isso, claro. Tem a eleição da rainha da festa, alguém que passa uma vergonha fodida, às vezes alguém que faz um negócio paranormal, essas merdas. Mas a parte do mocinho com a mocinha fez o Dread mudar de ideia. E quando os amigos chegaram, ele falou, antes mesmo da Paulinha se sentar: “Vamos no Baile da Primavera?”
Desde o primeiro dia do colegial, todos os dias, antes do sinal bater e no intervalo das aulas, o Dread, o Magrão e a Paulinha aterrissavam a bunda naquele corredor. Eram unidos pelas boas notas, por uma certa inadequação social e pela vontade de falar coisas idiotas diferentes das coisas idiotas que o resto do pessoal falava. Eram chamados de “nerds”, mas a Paulinha, de um ano pra cá, havia mudado muito. Continuava com o mesmo sorriso apertado entre enormes maçãs do rosto, os mesmo sotaque indefinível, o mesmo ar de quem percebia as coisas dois segundos antes dos outros. Tudo aquilo que tinha feito o Dread se apaixonar louca e silenciosamente. Só que agora ela tinha também o corpo de dançarina do É o Tchan, e não foi só ele que percebeu.
“O Christian, do grêmio, me chamou”, a Paulinha respondeu, meio sem jeito. “Eu vou com ele”.
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No McDonald’s
Aos 10 anos, Ana Paula começou a anotar em um caderno com capa felpuda os flashes que tinha do pai brincando com ela ainda bebê. Depois se convenceu de que eram lembranças inventadas, mas tudo bem, anotava assim mesmo cenas cada vez mais elaboradas e amorosas. Quando sua mãe contou que estava grávida, o pai encerrou o namoro de dois anos fracionados por brigas e reconciliações estrondosas contando que iria se mudar para São Paulo. Entrou em seu Puma e nunca mais nunca voltou a São José dos Campos. Paulinha foi criada pela mãe na casa da avó, que morreu quando a menina tinha 14. Meses depois, a mãe passou em um concurso e contou que se mudariam para o Rio de Janeiro. A filha não quis ir, pediu para morar com a tia em São Paulo. A mãe ergueu os ombros e entrou no Cometa.
Paulinha quase não saía do quarto pequeno da casa do Imirim. Ia para escola, voltava, estudava, estudava muito. E tentava se aproximar do pai. Descobriu que ele morava no Horto, não muito longe dela. Trocaram cartas, falaram no telefone, marcaram um encontro. Ele sugeriu um McDonald’s que tinha acabado de abrir, bem mais perto dele do que dela, mas tudo bem. A menina pegou um ônibus errado no Terminal Santana e pisou no McDonald’s da Maria Amália com a Nova Cantareira com meia hora de atraso. Então lembrou que eles não tinham combinado com que roupa iriam. Ela entrou na loja tentando encontrar alguém que se parecesse com a figura que estava nas poucas fotos que tinha do pai, mas com uns dez anos a mais, e não com a imagem que ela formava na cabeça quando inventava suas memórias de crianças. Pensou que ele também teria dificuldade para reconhecê-la. Alguns anos antes, ela chegou a mandar umas fotos, tinha umas lindas dela fazendo balé, outra dela em cima de um pônei, mas depois descobriu que o endereço dele estava errado. A do pônei ela não tinha cópia.
Na área externa, Paulinha viu um homem de camisa aberta no peito e a mesma a cara redonda que a dela. Ela sorriu, ele também. Ela se aproximou, ele baixou os olhos para o seu short jeans e suas pernas, sem parar de sorrir. Ela achou aquele riso esquisito, mas tudo bem. “Senta aqui, gata, vem falar comigo”, ele falou, fedendo a cerveja, e não vendem cerveja no McDonald’s. “Roberto?”, ela respondeu, paralisada. Só aí ele entendeu quem era a menina e tentou se justificar, caramba, Ana Paula, você tá diferente, vem, vamos comer um hamburguer…
“Eu não como hambúrguer”, ela disse, e voltou para o ponto de ônibus.
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No quarto
O Magrão era amigo do Dread desde os três anos, quando viu o menino chegando com a família e o caminhão de mudanças na casa do outro lado da rua. Mas essa era a primeira vez em que via o cara chorando assim, meio afogado, sem conseguir falar e sem ser porque tinha ralado o joelho no quintal de pedrinhas. Não sabia o que fazer, mas seu corpo se movimentou sozinho, dando um passo para frente. Para a surpresa do Magrão, Dread o abraçou e chorou ainda mais forte, feito uma mangueira furada, o nariz encaixado na sua saboneteira e o cabelo de kiwi do amigo roçando o seu pescoço. Os dois ficaram assim um bom tempo, sem falar nada, em pé no meio do quarto do Magrão.
O pai do Samuel que deu esse apelido ao filho único. Na verdade, ele chamava o bebê de Magrinho, mas como o garoto espichou sem crescer para os lados, virou Magrão. O pai era dono de uma pequena fábrica de brinquedos educativos, “que estimulam a psicomotricidade”, como o menino repetia a todos os colegas. Magrão realmente achava que todo mundo adoraria ser amigo de alguém que tinha uma fábrica de brinquedos, mesmo que fosse uma fábrica minúscula e deficitária, mas só o Dread achava legais aqueles jogos esquisitos. No quarto do Magrão, cheio de naves espaciais e quadros de astronautas e uma bicama para o Dread dormir de vez em quando, os dois fundaram clubinhos, jogaram videogame, passaram tardes estudando e até cheiraram cola roubada da fábrica (vomitaram muito e nunca mais chegaram perto daquilo). Mas só agora, com a camiseta toda molhada de lágrimas do Dread, o Magrão achou adequado contar uma coisa.
E fez isso mostrando uma música da Alanis Morissette, uma que falava o quanto tudona vida pode ser irônico, um cara ganha na loteria e morre no dia seguinte, não é foda? E ele falava isso sem saber direito se estava usando certo a palavra “irônico”, mas seguiu falando, às vezes gente acha um troço e aí é outro, sabe? Alguém que a gente vê como uma coisa, na verdade pode ser outra, e essa letra fala sobre isso…
“Essa Alanis é chata pra caralho”, disse o Dread, secando o nariz e reabrindo o livro de física.
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No baile
Aos quatro anos, sempre que o tempo mudava, Christian não conseguia respirar. Tinha uma asma selvagem, que assustava a todos. O menino ficava roxo, às vezes fazendo xixi e cocô de nervoso. Depois de muita bombinha, injeções, natação, flauta, os pulmões dele se regeneraram. O menino cresceu muito mês a mês, parece que toma fermento, a vó sempre dizia. Aos 12, era campeão de natação e tinha corpo de adulto, com costas enormes e sovaco peludo, além de um rosto perfeito, quadrado, de ator de filme americano. Aliás, se estivesse em um filme americano, Christian seria o cara mais popular da escola. Na escola dele, brasileira, da periferia de São Paulo, também.
Nas reuniões da diretoria do grêmio, Christian e mais meia dúzia de rapazes, todos muito atléticos, classificavam as meninas usando camisetas de futebol. As mais gostosas eram camisa 10. Um degrau abaixo vinhas as camisetas dos atacantes: 9, 7, 11… Tempos atrás, a Paulinha não teria nem a numeração de um jogador reserva. Hoje, ela lideraria com folga a convocação dos caras do grêmio, se o Christian não os tivesse proibido de tocar no nome dela. Ele estava louco pela menina que sentava perto da biblioteca com o outros nerds desde que fez um trabalho de história em grupo com ela. Quando chegou em casa naquele dia, bateu quatro punhetas seguidas, depois não conseguiu dormir. Por algum motivo, não conseguia chegar nela como fazia com as outras meninas, sem nenhuma hesitação ou insegurança. Passou a estudar para ter o que falar com ela. Sempre que possível, tirava dúvida, fazia comentários, sentava perto.
Ficou surpreso quando chamou a Paulinha para o baile. Ela aceitou de cara. A mãe dele levou os dois em seu carro, sorriu espantada com a cara do filho. Estava sério, compenetrado. Deve estar apaixonado, pensou. Na festa, conversaram muito, dançaram e foram para uma das salas que o grêmio tinha reservado para os convidados da diretoria. Na salinha abafada da balada, com as cortinas fechadas e luz baixa, começaram a se beijar. Paulinha baixou as alças do vestido e se comoveu quando viu as lágrimas nos olhos do Christian. Depois, percebeu que ele não conseguia respirar direito. Sentiu o cheiro ácido nos olhos: Christian tinha se cagado todo. Ele saiu da sala e correu para o banheiro. Ficou um tempão lá dentro enquanto a Paulinha andava de um lado para outro, pensando se ele estava bem, se ela tinha feito algo errado, se ela não deveria ter aceitado aquele convite. Quando ele saiu, ela só conseguiu perguntar: “Posso voltar com você e a sua mãe?”.
“Vai voltar sozinha. Puta!”, ele respondeu, desfigurado.
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No corredor (2)
Na segunda, o Dread, o Magrão e a Paulinha estavam sentados no corredor de novo. Todos de olhar baixo. Ela não contou que tinha voltado à pé do Baile da Primavera, às 2h da manhã, do Bairro do Limão ao Imirim. Só foram repassando alguns pontos da prova de física, que teriam daqui a duas aulas. Aos poucos, foram se soltando, falando bobagens. O Dread fez uma piada, ela riu. E eles poderiam se acertar, voltar a ser os amigos que eram até a semana passada, quem sabe mais do que isso, se no meio disso tudo o Magrão não tivesse falado:
“Ouvi falar que você chupou a rola do Christian. Gostou?”
