por Américo Paim
Aquilo pareceu acaso, mas a gente vê tanta coisa por aí. A mãe, internada há vários dias, em cuidados paliativos, inconsciente. Simas, o filho mais novo, com ela no hospital. Rômulo, o mais velho, em casa, à procura de alguns documentos no escritório. Abriu a gaveta do meio da mesa de trabalho e, mexendo em uma pequena pilha de papéis, encontrou um envelope, pequeno, fechado e sem cola. Era do tipo comum, sem qualquer marca de empresa. Estava escrito em caligrafia manual: “Caso eu falte”. Abriu. A leitura, que foi atenta, lhe trouxe sentimentos ruins. Recostado na cadeira, pensou ainda pior.
Dia seguinte, pesquisou em vários cartórios, não encontrando nada lavrado. Inseguro sobre o que fazer, manteve o documento. Nos dias seguintes, buscou outras evidências como as daquele texto. Nada. Sua mãe morreu poucos dias depois e aquele papel permaneceu em seu poder.
O local estava cheio. Nenhuma surpresa. O calor do ambiente decorado com simplicidade, como se espera nesses casos, era atenuado apenas por um ventilador, com mais barulho que eficiência. Prisioneiro de seus pensamentos, Rômulo não percebeu a aproximação de Marília. Ela estava muito bem, para sua surpresa. A pele lisa e bem tratada, os óculos, depois da cirurgia, deram lugar a um rosto firme e decidido. Os cabelos estavam curtos e nem se via sinal de grisalhos. O vestido branco lhe dava jovialidade. Ela lhe pareceu bonita e falou com a segurança de sempre.
– Achei bem estranha essa decisão, viu?
– Não entendi.
– A cremação.
– Foi um pedido, Marília.
– Por que razão? Quando? Que papo é esse?
– Estou lhe dizendo.
– Está escrito? Me mostre.
– Não. Foi conversa nossa. E mais de uma vez.
– Nunca me falou sobre isso!
– Falou comigo.
– Então me dê um motivo. Não fuja da pergunta!
Rômulo olhou duro para ela e deu de ombros para encerrar a conversa. Ele a via como intrometida, curiosa, ou seja, chata, uma prima inconveniente. Ela sempre foi muito figurinha carimbada em sua casa. Fazia companhia para sua mãe há muitos anos, desde a viuvez. E não era segredo para ninguém que era muito mais próxima de Simas que dele. Marília era mais ainda – confidente dos dois, solidária, nunca faltou nas horas de aperto. Aquilo, porém, não o aborrecia. Lhe era cômodo, por assim dizer.
Rômulo torcia para que tudo acabasse de uma vez. Só pensava em vazar dali e do país, começar vida nova. Estava cansado do seu trabalho como químico no laboratório da grande empresa de produção de plásticos. Era um especialista, gozava de algum prestígio, mas não queria mais aquilo. Documentação em dia, nada mais para atrapalhar seus planos. Era uma questão de tempo, dos trâmites e tal e coisa. Sem se desconectar por completo do que lhe povoava a cabeça, resolveu circular um pouco, interagir com outras pessoas.
– Anacleto, há quanto tempo. Obrigado por ter vindo.
– Dona Feliciana, como está? Obrigado, obrigado. A senhora me desculpe a falta nos 80 anos. Foi trabalho.
– Seu Menezes, tudo bem? Mande minhas lembranças a Dona Arlete. Sei, sei, nem se preocupe.
Era bom de trato. Aprendeu com a mãe, mesmo com as grandes dificuldades entre os dois, para falar o mínimo. Também herdou dela um gosto pela religião, embora ela fosse bem mais carola. Ela era muito simpática com todos, mesmo com quem odiava. As aparências são fundamentais, ela dizia. E chamar a atenção também. Então, manter a imagem de bom moço, quanto mais com o povo mais velho, não faria mal. Ajudaria nos seus propósitos. Sua camisa social, nova, em tom azul bem escuro, escondia um princípio de pizza no braço direito. Precisava vir arrumado, claro. Barba muito bem cuidada, cabelos lisos penteados no rigor, para deixar a testa à mostra, dentes saídos de manutenção, impecáveis. Além de tudo, em boa forma, merecia mostrar a falta de barriga. Os gestos contidos, bem planejados, as mãos em concha e o rosto com semblante de vazio faziam dele um magneto para os convidados. As pessoas vinham com as mais diversas manifestações de carinho. Até mesmo sua mãe teria orgulho. Sorriria satisfeita. O rosto fino compunha um perfil enigmático com seus expressivos olhos, grandes e profundos, que perceberam o vulto se aproximando pela lateral.
– Rominho! Só pude chegar agora – Sebastião falou e demorou no abraço.
– Deixe disso. E Teresa?
– Ficou em casa com as crianças. Aqui não é para eles.
– Claro, claro.
– O pessoal do escritório lhe mandou um abraço. Quase ninguém podia sair.
– Entendo. Muito obrigado.
– Mas, me diga, o que aconteceu com ele?
Rômulo silenciou por segundos. Como explicar de forma simples? Não queria render assunto, pois todos já sabiam que ele foi o primeiro a ver o corpo. Não achava que isso fosse gerar algum problema agora, já é assunto da polícia, mas como tudo foi tão comentado, por causa da surpresa, ele queria passar longe de ter que dar muitos detalhes e atiçar a curiosidade de outros que já se encostavam na dupla, abutres à espera de carniça. Marília também chegou e se fez notar. Plateia demais, pensou ele. Sair com uma desculpa simples para não falar, que seria aceita, mesmo não entendida, ou aproveitar o que se revelava uma oportunidade?
Então ele falou. Pausado, calculando respirações, e com pincel de drama nos pontos certos. Esteve com Simas na noite anterior. Tomaram uns drinks em seu apartamento, lembrando histórias de família, brincadeiras de infância. Houve um momento, inevitável, em que lembraram da mãe, morta uma semana antes. Foi uma noite normal, disse ele. O irmão pegou um Uber e foi para casa. Na manhã seguinte, como eles combinaram de se encontrar na casa da mãe para verem algumas coisas dela, dar um destino, Rômulo seguiu para lá, sem nem telefonar antes. Se atrasou porque esqueceu de colocar o despertador do celular. Quando chegou, já encontrou o irmão daquele jeito, corpo sem vida caído no chão, olhos arregalados em uma expressão que classificaria como medo, diante da porta do banheiro. O corpo, à primeira vista, não apresentava sinais de violência. Acionou socorro, mas de nada adiantou. A morte foi constatada já no local. O médico da emergência confirmou a parada súbita. Uma grande surpresa, pois Simas parecia estar com ótima saúde. Foi um baque enorme, em intervalo tão curto perder mãe e irmão. As pessoas ouviram sensibilizadas seu relato, com intervalos para enxugar os olhos: “Que tragédia…”, “Tão jovem”, “O que será da vida dele agora?”, “Ainda bem que os dois irmãos não têm filhos”. Após mais alguns abraços, os convidados se afastavam e iam ao caixão, para mais orações. A exceção foi Marília, que lhe puxou pelo braço de forma discreta, mas firme.
– É só isso, Rômulo?
– Como assim?
– Encontrou morto e pronto?
– Ué? Queria o que mais?
– Eu não aceito. Ele tava muito bem.
– Estive com ele na véspera e digo o mesmo.
– Então o que houve?
– Não me ouviu contar? Parou súbito.
– Mas, você não me respondeu ainda.
– O quê?
– Por que cremação? Ele adorava o mausoléu da família.
– Isso sempre foi meio estranho, vamos admitir, né?
– Ele era arquiteto, curtia essas coisas.
– E daí?
– Eu era a melhor amiga dele. Nunca me falou disso, nunca.
– Tem coisas que são mais íntimas.
– O que é que eu não sabia da vida dele? Sabia mais que você.
– Marília, repare. Não adianta discutir isso agora. Ele se foi.
– É uma decisão importante. Foi por causa do preço? Dinheiro não é problema, né? Ou tem algo a mais?
Com um muxoxo, Rômulo se afastou de novo, aproveitando a chegada de mais um parente. Faltavam 50 minutos ainda. Essa mulher é um saco, falou sozinho. Porém, foi de certo modo uma benção, pois ajudou em todas as providências com o corpo, enquanto ele acertava o cemitério e a cerimônia. Ela cuidou de tudo: embalsamamento, vestir o morto, traslado, arrumar o caixão. Não saiu de perto um só momento. Louvável, ele pensou, mas estava aliviado porque ia se livrar da presença constante dela em suas vidas. Aquela intimidade dela com a mãe e com Simas não lhe causavam ciúmes, mas irritação.
O padre chegou e todos se organizaram para a missa de corpo presente, o que transcorreu até rápido porque o ministro tinha outras para fazer. Eram 10h45 e a hora da transferência para o crematório se aproximava. Novos abraços e orações diante do caixão. Alguns emocionados e outros checando o horário, felizes com a oportunidade de vazar sem ter que ir à cerimônia, que começaria em instantes. A pedido de Rômulo, uma pessoa leu e comentou breve um trecho do Novo Testamento. A cinco minutos do horário limite, durante um Pai Nosso puxado de última hora por uma tia atrasada, ouviu-se um som claro de celular. As pessoas correram bolsos e bolsas para silenciar o inconveniente, mas o som continuava. Mais alguns segundos e já rolava um constrangimento. Será que ninguém conseguia parar aquilo? Até que alguém mais atento encerrou a reza com uma frase que ninguém mais que estava lá vai esquecer.
– Oxe, o som vem do caixão!
Vieram sustos, desmaios e até risos. Tudo em suspense por segundos. Não era um toque de ligação. Era como um alarme. Rômulo tentou se aproximar do local de onde vinha o som insistente, mas o primo Renatão foi mais rápido. Guiado pelo ruído, desarrumou parte do arranjo e encontrou o aparelho entre os pés do falecido. Tirou os resíduos de flores da tela e, no reflexo, leu a mensagem que piscava na tela, para estupefação geral, exceto de Marília, que escondia com a mão direita um riso discreto de belos dentes:
“Rominho, leia aqui e agora o verdadeiro testamento. Bonita camisa. Um beijo da mamãe”.
