Every move you make

16/04/2026

Um rasgo de cinco centímetros no courino da Remada tem me chamado atenção. Fico pensando que objeto ou movimento teria provocado a marca no encosto, bem na altura da escápula direita. E se à noite as máquinas desocupadas roncam, se movem e se atacam. O corte faz lembrar a falha, quando o músculo já não suporta o esforço e é hora de parar.

A recente adoção de músicas de fundo ,ou da Antena Um ou da Alfa FM, tem preenchido o vazio das poucas conversas. Hoje a Every Move You Make  do Police me pegou. Desconsiderando o comportamento stalker do eu lírico, desconheço outro título ou verso que faça tanto sentido neste ambiente. Acho que vale prestar atenção nas trilhas sonoras acidentais.

18/04/26

Li com a algum esforço a frase Sundays over Mondays na camiseta de outra das diferentes pessoas que aparecem no sábado. Muitas, que vejo pela primeira vez, é bem possível que não veja de novo. Esta mulher, com menos de cinquenta anos, tinha os cabelos presos por um elástico frouxo e óculos de armação dourada. Parecia cansada e distante. A manhã estava mesmo quente e os seus pensamentos deviam estar no domingo anti segunda, da frase na camiseta, ou no pico da montanha que o suor dos cachos loiros desenhou nas suas costas.  

Fuscas e Kombis aparecem com frequência nas camisetas  de frequentadores. A Moça da Camiseta de Kombi é que não aparece faz tempo. Imagino que ela gostaria da camiseta branca com  Kombi amarela do Pequena Miss Sunshine, o moço que a usava era mais um dos que nunca vi antes. Já o homem do Fusca contornado e sem cor , vi hoje pela segunda vez.

Sábado também é dia dos atrasos. A atrasada da vez comentava com a Japonesa Loira que tinha acordado tarde e que beber cerveja, como tinha feito na véspera , não é a mesma coisa de quando tinha trinta ou quarenta anos. Nem uma latinha eu suporto, ela lamentava.

A camiseta da Escandinava mostrava uma competição de Trekking acontecida em fevereiro numa cidade da Serra da Mantiqueira. Foi você que participou?, perguntou o Japonês de Máscara. Não. Foi o Aldo, meu marido. E como ele está? Depois desta caminhada, ela perguntou? Não. Como ele está no geral. Faz tempo que não nos vemos. Percebi ali que ambos já se conheciam . Assim que ela respondeu que Aldo estava ótimo e acrescentou que as trilhas têm lhe feito muito bem, sugeriu que o Japonês de Máscara deveria fazer o mesmo. Você devia participar. A imersão na Natureza muda a gente. Acho que não é para mim, ele respondeu, mandou um abraço para o Aldo e seguiu para o Press Peitoral.

O Japonês de Máscara conversa com todos, menos comigo. Fiquei pensando o quanto eu resistiria numa dessas caminhadas longas, por trilhas e em lugares isolados. Por influência daquelas histórias de sobreviventes de naufrágios e grupos perdidos na mata, me incomoda a ideia de ter que passar uma ou mais noites com um grupo de pessoas estranhas.

A TV de programação interna avisa:

Terça-feira, feriado de Tiradentes a academia permanecerá fechada. Voltamos às atividades normais na quarta.

Hoje não teve Alfa FM , nem Antena Um.

23/04/26

Como o replay de uma apresentação de ginástica olímpica vejo de novo a coreografia das Gêmeas em máquinas vizinhas. Ambas empurram o Leg Press na mesma velocidade e ritmo.  Não prestei atenção qual música tocava na rádio FM do dia, nem mesmo se estava ligada. Só a cena muda bastava.

25/04/26

Sábado de novo e vejo, agora pela segunda vez, a Moça dos Cachos Loiros . Ela repete a camiseta Sunday over Mondays.

Já da escada, percebi o lugar lotado pelos ruídos e já lá em cima, pela dificuldade em encontrar um escaninho livre para a minha mochila vazia de acessórios fitness como uma garrafa colorida para água, cronômetro e luvinhas para evitar calos. A televisão mostrava reprises dos Jogos de Inverno na Cazé TV. Quem ainda se interessa por rever e vibrar com partidas de curling?

Vez ou outra, um aluno olha sem ver a tela. O aparelho preso na parede é só um ponto de referência onde repousar os olhos. Também faço isso e hoje o som baixo da TV se misturava ao da Alfa FM sem ninguém se incomodar. O responsável pelas imagens e pela música fica na recepção, no andar de baixo. O escalado para este sábado é o mais novo dos funcionários e ele estava com os cabelos molhados. O cachinhos brilhavam com a água. Deve ser difícil acordar cedo num sábado pós balada. Certamente tinha dormido nada ou muito pouco.  Certamente deveria ser favorável ao fim da escala 6X1.

Alguns dos olhares vazios são olhares de canto disfarçados. Aconteceu com a Escandinava. Não era para mim, mas para alguém da Rosca Lateral. Da sua cadeira na Lombar, ela desviou o olhar quando me notou. Vai ver , como eu, também distrai o olhar nos outros. Se faz o mesmo, queria muito saber como me vê. Ela e quem sabe todos, talvez façam o mesmo.

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